IBASE: Publicada em: 2005



Além do Casulo

Alfredo Boneff - IBASE


Malena, Camilly, Bruna, Alexia. pessoas que enfrentam, diariamente, o reducionismo e o preconceito que definem toda orientação sexual diferente daquela, supostamente normal, como aberração. Mas no documentário Borboletas da Vida, do diretor Vagner de Almeida, seus depoimentos e manifestações de sexualidade são abordados de outra forma: sem o ranço de clichês que povoam a mídia ou traços de paternalismo.

O filme faz parte do Projeto Juventude e Diversidade Sexual, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), e será lançado nesta sexta, 14 de janeiro, 2005, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Realizado com o apoio do Ministério da Saúde, trata-se de um olhar ao mesmo tempo contundente e lúdico sobre atores sociais invisibilizados pela discriminação.

São cerca de 37 minutos, selecionados das mais de 50 horas de filmagem em Austin e Nova Iguaçu, municípios da Baixada Fluminense. Vagner de Almeida procurou retratar, num período de 24 horas, a vivência de jovens homossexuais que, em determinado momento, transformam-se em mulheres. Borboletas da Vida recusa definições fáceis, enquadramentos em categorias engessadas como travesti ou transformista. A opção é mostrar, claramente, uma expressão de sexualidade que escapa às definições mais cômodas. E, além disso, evidenciar que tais opções não implicam, necessariamente, uma atuação como profissionais do sexo.

"O filme retrata as transformações de gênero e por isso se chama Borboletas da Vida. Porque esses meninos conseguem conviver com a homossexualidade deles, mas, em certo instante num fim de semana, entre às 9 horas da noite e 3 ou 4 horas da madrugada, eles se transformam completamente em mulheres. E por volta das 4, 5 da manhã, tiram a roupa e voltam a ser rapazes. É como se despedir de um casulo e colocar uma fantasia, que são suas asas de ”borboleta", analisa o diretor Vagner de Almeida.

O documentário revela aspectos como o processo de transformação de tais jovens em mulheres. Num jargão bem específico, isso significa "trazer a mulher na bolsa". É nela que estão os acessórios que serão fundamentais para a metamorfose. Objetos como perucas, calcinhas, tamancos, pulseiras e, em certos casos, a maquiagem.

"Registrei toda a construção, os truques que eles usam para se transformar em “meninas", lembra Vagner. Formado originalmente em Estudos Sociais na UCP – Universidade Católica de Petrópolis.

Ele estudou Análise de Imagens para Cinema, na década de 1980, em Berkeley, na Califórnia. Atualmente - além de ministrar oficinas na Abia - trabalha no Centro de Gênero, Sexualidade e Saúde da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Pirelli Malena, que contribuiu com seu depoimento para o filme, enfatiza o caráter sigiloso desse processo. "Isso é até um segredo de estado. Não é todo homossexual que demonstra a questão da montação (sic). Tem a maquiagem, o truque da Pirelli, muita coisa que você coloca para se transformar naquela mulher maravilhosa." O truque da Pirelli consiste em colocar enchimentos, geralmente de espuma, para evidenciar formas mais femininas.

A maquiagem, por sinal, é um elemento que por vezes explicita defasagens de poder aquisitivo. "Há os que têm dinheiro para comprar o pancake, há os que não têm", diz Vagner. A diferença, no entanto, deflagra momentos de companheirismo. "Existe a solidariedade na hora da montação. Dentro do camarim, uma ajuda a outra", conta Malena.

Tais situações exibidas no documentário, no entanto, não resvalam para o meramente pitoresco. De acordo com Vagner de Almeida, o que sobressai no resultado final é a contextualização de um grupo social num ambiente geralmente hostil que é a Baixada Fluminense. Ele explica a escolha dessa região para a filmagem como um processo de amadurecimento do projeto Juventude e diversidade sexual.

"No início dos anos 1990, o projeto tentava abranger todo o Rio de Janeiro, o que é muito difícil. A coisa ficou, então, muito pela Zona Sul, no máximo chegava até a Mangueira. Conversei com os coordenadores e disse que a necessidade não era essa. Que tínhamos que ultrapassar o túnel. Na época, existiam vários projetos comunitários além do túnel, mas não dirigidos especificamente a homossexuais", diz.

Os percalços durante a realização do filme não foram poucos. Numa gravação na rua do Xuxu, em Austin, o cineasta foi abordado por um morador. "Esse filme é para quê?", questionou o sujeito. A explicação não satisfez e a réplica veio na forma do mais virulento preconceito em relação aos personagens retratados. "Não filme esse lixo. Olha só quanta gente boa passando aqui.

" Identidade sem estereótipo

Mas é justamente esse recorte geográfico que permite a militantes como Malena a oportunidade de contar um pouco de sua trajetória. "Já tenho 12 anos de militância. A gente até brinca, dizendo que sou cacurucaia (sic), que já estou velha pra essas coisas. Tentei falar de tudo que passei. Não apenas a questão da prevenção a DST/Aids, mas também episódios como aquele em que fomos responsáveis pela prisão de um assassino que matava pais-de-santo gays. Ou o fechamento de uma loja neonazista na Baixada, ligada à torcida Raça Rubro-Negra", recorda.

Malena, cujo nome de batismo é Miguel Bauara, tem 29 anos e mora na Baixada Fluminense desde 1984. Ela completou o ensino médio e, atualmente, mantém uma quitanda em sua própria casa, onde também vende cosméticos. Sua residência funciona como um posto informal de prevenção dentro da comunidade, seja por meio da distribuição de preservativos - "não escolho cara, distribuo para homens, mulheres, gays etc - ou de conversas sobre maneiras de proteção a doenças sexualmente transmissíveis.

"Acredito que o filme pode até abrir portas para projetos na Baixada Fluminense. A Abia permitiu essa oportunidade para que a região seja vista com bons olhos. Porque quando se fala em homossexual na Baixada sempre vem o estereótipo: marginal, miserável, analfabeto. Não é isso", aponta Malena. Camilly - também moradora de Austin e que montou um salão de beleza em casa -, concorda e reafirma, diariamente, a sua identidade. "Hoje trabalho por conta própria, em casa. É muito difícil um travesti, ou uma pessoa pintosa (sic), arrumar serviço. Então decidi ser independente para poder ser o que quero, o que sou hoje em dia. Posso me transformar, trabalho com roupa de mulher, roupa de homem, tanto faz."

Aos 35 anos, Camilly chama-se, oficialmente, Carlos. Devido às dificuldades financeiras da família, concluiu apenas o ensino fundamental. "Fiz só até a 8ª série porque a barriga roncava." Sua clientela é formada, majoritariamente, por homens heterossexuais.

Atualmente, o projeto Juventude e Diversidade Sexual desenvolve-se em várias frentes. São oficinas semanais abertas à comunidade, cursos de profissionalização, seminários, produção de materiais informativos e capacitação de outras ONGs. Desde 1993, a iniciativa já rendeu frutos como a peça Cabaré Prevenção (posteriormente transformada em filme) e o documentário Ritos e Ditos de Jovens Gays. Todas as produções foram dirigidas por Vagner de Almeida.

Borboletas da Vida, gravado em vídeo digital, terá 300 cópias em VHS e outras 300 em DVD, o que permitirá sua veiculação em diversos locais, não só do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil. O filme também deve alcançar outros públicos, pois será traduzido para o espanhol e para o inglês.

Coordenadora do projeto também com Vagner, Ana Elisabeth Barros analisa a importância de uma produção como essa para fortalecer a identidade de um grupo historicamente marginalizado.

"No momento em que se dá voz às pessoas, elas começam a se perceber de um outro lugar. Quando se faz uma análise do lugar que a homossexualidade ocupa na sociedade brasileira, percebe-se que é o da exclusão. Então, quando você traz essas pessoas para a cena, quando elas têm a oportunidade de ser ouvidas, vão dizer: eu não sou marginal, só tenho uma experiência sexual que é diferente da sua."

As organizações e fundações interessadas em solicitar o material devem entrar em contato com o Centro de documentação (Cedoc) da Abia. O telefone é (21) 2223-1040 e o site é : www.abiaids.org.br

Resenha
Alfredo Boneff

 


Para obter cópias desses documentários, favor contactar
ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS).
email: abia@abiaids.org.br

MAIN (English version)
PRINCIPAL (clicar Português)

 

para maiores informações enviar e-mail:
vagner.de.almeida@gmail.com