CLAM

Publicada em: 02/08/2005
Cientista Social, mestrando em Saúde Coletiva pelo PPGSC/ IMS/ UERJ



Borboletas da vida
Imagens da homossexualidade masculina em camadas populares

Leandro de Oliveira, Cientista Social, mestrando em Saúde Coletiva pelo PPGSC/ IMS/ UERJ


Borboletas da Vida. Direção: Vagner de Almeida. Rio de Janeiro: Abia, 2004, 38 min.

O documentário focaliza a experiência e o cotidiano de jovens homossexuais em contexto de camadas populares. Realizado no bairro de Austin, no município de Nova Iguaçu (Região Metropolitana do Rio de Janeiro), esboça um quadro das vivências do gênero, da sexualidade e da violência na periferia de um centro urbano brasileiro. São apresentadas, com densidade etnográfica, algumas das formas pelas quais esses sujeitos elaboram suas vidas, lidando com a discriminação em um meio social avesso à homossexualidade.

A cena inicial mostra o centro de Austin no período diurno, a movimentação em torno da estação de trem e do comércio informal local, ambientando o expectador com o universo em que a narrativa se desenrola. Das imagens do bairro, somos conduzidos ao interior da casa e da rotina dos jovens cujos depoimentos são recolhidos – rapazes que praticam o crossdressing como forma de expressão de sua sexualidade. Os depoimentos destacam o impacto que a rejeição social à homossexualidade exerce sobre suas trajetórias biográficas.

Desemprego, atos violentos perpetrados por desconhecidos, incompreensão ou mesmo agressões sofridas no próprio círculo familiar emergem nos relatos como experiências comuns a esse segmento social, sinalizando para mecanismos de estigmatização vigentes. Embora o cenário global nos grandes centros brasileiros caminhe para uma crescente visibilização de identidades estruturadas em torno de desejos e práticas não-heterossexuais, em diferentes contextos vigoram dinâmicas de exclusão, associadas, por exemplo, a crenças religiosas. A adesão de membros da família a religiosidades cristãs emerge como elemento que acirra tensões na esfera doméstica. O risco de agressão física ou mesmo violência letal é também sombra constante que se projeta sobre suas existências. Contudo, a sujeição a diferentes formas de violência enseja respostas coletivas, tendo como um de seus efeitos a mobilização de atores sociais em torno de organizações engajadas na luta pelos direitos humanos. Configuram-se também estratégias pessoais pelas quais lida-se cotidianamente com o estigma social, como tentativas de manipulação e apagamento de sinais que pudessem identificá-los como homossexuais. O roteiro ressalta, assim, os inúmeros constrangimentos a que os sujeitos são submetidos caso visibilizem sua orientação sexual em suas redes de vizinhança, trabalho e família.

Evidencia-se também a importância de compreender como práticas homossexuais são significadas de distintas formas, em diferentes segmentos de uma mesma sociedade. Ser (ou descobrir-se) homossexual na Baixada Fluminense é diferente da experiência vivida por jovens das camadas médias urbanas nas relações com pessoas do mesmo sexo. Trata-se de um universo marcado pela dominação masculina, em que hierarquias de gênero são continuamente reiteradas. Nesse contexto, a homossexualidade é associada a uma performance feminina, em cuja composição o cross-dressing exerce papel fundamental.

A prática do cross-dressing – o uso de peças de vestuário e adereços prescritos exclusivamente ao sexo oposto – em diversos contextos culturais pode estar associada a rituais de inversão temporária da ordem, como o caso do carnaval brasileiro, ou a expressão de fantasias e desejos eróticos heterossexuais, como na cultura norte-americana contemporânea. No universo retratado pelo documentário, no entanto, essa prática é uma das formas de manifestação da orientação sexual desses jovens rapazes. A homossexualidade aparece em suas falas e em suas vidas intimamente associada à feminilidade: ela é vivenciada plenamente no exercício de uma performance feminina, particularmente pelo emprego de roupas do sexo oposto em contextos específicos de sociabilidade. Essa feminilidade é uma “natureza íntima”, que alguns desejariam poder permitir aflorar durante todos os momentos da vida, mas tentam refrear temendo as represálias que poderiam sofrer caso decidissem dar livre expressão a essa faceta de sua subjetividade. Esses rapazes, que não se consideram travestis por não modelarem seu corpo por meio de próteses e hormônios, “carregam uma mulher na bolsa”: através do recurso a vestimentas, perucas e acessórios, produzem e acionam contextualmente a feminilidade com que se identificam.

O vídeo mostra ainda algumas imagens de um dos espaços de sociabilidade em que tais expressões do gênero são possíveis – uma boate voltada para o público não-heterossexual, situada também na cidade de Nova Iguaçu. Acompanha o ritual de chegada dos jovens, o processo de maquiagem e vestimenta, etapas na montagem da persona feminina que estes colocam em cena. Apresenta-se ali um contexto onde podem dar livre curso a disposições que, em outros círculos sociais, são represadas como forma de evitar a homofobia.

Borboletas da Vida consegue retratar o cotidiano desses rapazes integrando múltiplos aspectos de sua realidade – trabalho, relações de parentesco, amizade, subjetividade, experiências amorosas. Um registro valioso, que visibiliza a experiência de um segmento social sobre o qual poucas pesquisas e estudos foram produzidos.

 


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